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HISTÓRIA

Avó, filha e neta relatam os horrores da Segunda Guerra Mundial

No campo de concentração, ela foi separada dos pais e do irmão e colocada junto a três primas

10/11/12, 10:36

Noemi Jaffe (à esq.), Lili e Leda, que lançam o livro "O que os Cegos Estão Sonhando?"

U
ma imagem assombra Noemi Jaffe desde a infância: a mãe em Auschwitz, ajoelhada sobre cascalhos, sustentando uma pedra na cabeça.

Lili tinha 17 anos. Era 6 julho de 1944, e ela chegara com os pais e o irmão havia dois dias no campo de extermínio nazista na Polônia. Da família, só os filhos sobreviveram.

Noemi, 50, escritora e colaboradora da Folha, odiou durante toda a vida o oficial nazista que aplicara tal castigo e sempre quis saber mais sobre o passado da mãe.

Já Lili, hoje uma simpática senhora de 86 anos moradora de Higienópolis, zona oeste de São Paulo, preferiu esquecer tudo. No fim da guerra, em 1945, ela escreveu um diário sobre o período em que esteve cativa. Depois, diz não ter pensado mais a respeito do assunto.

No braço, ela conserva tatuada a inscrição A 16334, método que os alemães usavam para identificar os prisioneiros.

Talvez, porém, esquecer ou lembrar tudo sejam tarefas igualmente irrealizáveis. Dessa inviabilidade nasceu o livro "O que os Cegos Estão Sonhando?", escrito a seis mãos por avó, filha e neta.

O título reúne o diário de Lili e as reflexões de Noemi e sua filha, Leda, 23, sobre a tragédia. As duas visitaram Auschwitz em 2009 para coletar informações.

DESTINO

Se para filha e neta a herança da guerra é algo a um só tempo incontornável e incompreensível, Lili diz acreditar que foi simplesmente algo traçado por seu destino. Para ela, Acreditar ou não no destino é uma das muitas diferenças entre Lili e Noemi. Para a filha, apenas circunstâncias acidentais podem explicar, por exemplo, por que a mãe sobreviveu enquanto outras milhões de pessoas morreram em campos de concentração.

Já para Lili, é mais do que óbvio que nada é casual.

"Tudo já estava determinado, não podemos escapar do que foi traçado . Quem iria dizer que eu estaria viva até hoje, que teria uma família tão bonita?", pergunta Lili.

É possível que nem ela mesma. Mas, revendo a sua trajetória, parece claro para Lili que foi graças à guerra e ao diário, hoje parte do acervo do Museu do Holocausto (em Israel), que conheceu o seu futuro marido e veio parar no Brasil. ENem ela vivia em sua cidade natal, Szenta (atual Sérvia), mesma poderia imaginar quando foi presa pelos nazistas, em sua cidade, Szenta (atual Sérvia), em abril de 1944.

Até chegar a Auschwitz, trajeto intercalado com paradas em escolas e fábricas, foram dias de viagens sem água ou comida.

No campo de concentração, ela foi separada dos pais e do irmão e colocada junto a três primas. Foi para proteger uma delas que Lili assumiu uma falta que não cometeu, furtar margarina da cozinha do campo, e recebeu o castigo que tanto perturbou Noemi.

Além da pedra carregada por duas horas na cabeça, os diários relatam a fome e o frio intensos, as doenças e o permanente desconforto.

Tanto quanto o relato, espanta a sobriedade com que a jovem Lili escrevia, escapando de sentimentalismos ou autocomiseração. "Era algo terrível mas, ainda assim, ríamos", escreveu.
No fim da guerra, após um período na Suécia, retornou à Sérvia, onde conheceu Aron Jaffe, outro judeu sobrevivente do horror da guerra. O rapaz caiu de amores por ela, mas, para Lili, tudo não passava de amizade.

Pouco depois, Aron teve que partir para a Hungria. Certa de que nunca mais o veria, ela o presenteou com o seu diário. Aron então preencheu as páginas restantes com juras de amor a ela (esses trechos não fazem parte do livro).

MEMÓRIA LITERÁRIA

Um ano mais tarde, o destino, como ela gosta de dizer, fez com que Lili também fosse para a Hungria, reencontrasse Aron e casasse com ele.

Parte da família do marido já morava no Brasil, e o casal tomou o mesmo rumo.

Em casa, a história dos pais e do diário guiou também a memória da filha. "O diário me constituiu", diz. "Era como um dever lembrar o que ela esqueceu. Meu gosto por literatura vem da necessidade de guardar."

Leda, filha de Noemi e, como ela, escritora, enxerga na literatura uma forma de refletir sobre a tragédia.

"Quando estive em Auschwitz, me questionava: o que eu faço com todo esse passado? Escrever também é uma maneira de lidar com o inexplicável."

Hoje o diário faz parte do acervo do Museu do Holocausto, em Israel. Noemi conta que as funcionárias ficaram eufóricas quando souberam.

Fonte: JL/Folha
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