JORNAL LUZILÂNDIA
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ENTREVISTA
Ciro: “O que guia minhas iniciativas é a obrigação com o Brasil”
13/04/18, 10:45
 
C
om Lula preso em Curitiba, grupos “protofascistas” passaram a canalizar seu ódio em direção ao presidenciável
Ciro Gomes, do PDT. Um dessas organizações ofereceu mil reais a quem dirigisse impropérios ao ex-ministro em um restaurante em São Paulo.

Um youtuber reacionário, responsável por um programa de gosto duvidoso chamado “Mamãe, falei!”, famoso por supostamente confrontar seus entrevistados, espalhou a falsa notícia de que teria sido agredido pelo pedetista, boato rapidamente desmentido pelas cenas do encontro.  

“Considero isso tudo um sinal dos tempos”, minimiza o presidenciável.

Sobre as críticas a sua ausência nos atos contrários à prisão de Lula, Ciro Gomes pede “refúgio na história”.  Nos 16 anos em que Lula exerceu o poder, diretamente ou por meio de aliados, afirma, “eu o apoiei”. A detenção do ex-presidente, diz, lhe causa “angústia e aflição”.

Segundo o ex-ministro, engana-se quem espera dele um alinhamento automático e acrítico por afinidade ideológica ou simpatia. “Tenho obrigação com o País. Isso guia minhas iniciativas e meu comportamento”. 

CartaCapital: Após a prisão do Lula, o senhor parece ter se tornado o novo alvo de movimentos como o MBL e quejandos...

Ciro Gomes: Isso não começou após a prisão do Lula. Está anunciado faz tempo que a tática desses grupos protofascistas é me provocar e tentar insuflar o pessoal contra mim. Vou ser obrigado a tornar mais cuidado daqui para frente. Eu viajava displicentemente, sem segurança, e gostaria de continuar assim, mas percebo que, de agora em diante, até por conta da minha crescente responsabilidade para com o País, terei de me proteger. Continuarei a viajar de avião de carreira, mas tomarei maiores cuidados. Considero isso tudo um sinal dos tempos. 

CC: O senhor também foi cobrado, desta vez pelo chamado campo progressista, por supostamente não sair em defesa do ex-presidente de Lula de forma mais contundente. Como responde a essas críticas?

CG: Tem de ter muita paciência para entender o que o PT e o ex-presidente Lula passam neste momento. Isso tudo me causa muita angústia e aflição. Deus sabe o quanto eu gostaria de não ter de testemunhar esse momento, mas sou candidato à presidência da República, caso, no tempo certo, o PDT aceitar essa candidatura, e tenho obrigação com o País. Isso guia minhas iniciativas e meu comportamento. Sobre a minha relação com o Lula, peço refúgio na história. Por 16 anos, Lula, diretamente ou por meio de aliados, exerceu o poder. E neste período, sem faltar nenhum dia, eu o apoiei. 

CC: O senhor teme que as eleições não aconteçam?

CG: Não. Acho que elas vão acontecer. Não há força organizada no Brasil para estabelecer uma ruptura da Constituição a ponto de suspender o calendário eleitoral. Por mais que haja impertinências e manifestações de comandantes militares, não vejo senão um profundo profissionalismo nas Forças Armadas. Elas sabem que não é seu papel romper com a Constituição. 

CC: O que o senhor espera do Supremo Tribunal Federal em relação às prisões em segunda instância?

CG: O Brasil trava um debate mal sistematizado, mal esclarecido, a respeito da escola do direito em vigor na nossa tradição. No nosso caso, que herdamos a tradição lusitana, vale o que está escrito.

E o que está escrito é de uma clareza meridiana: é presumida a inocência de qualquer paciente cujo transito em julgado de sentença condenatória não tenha se consumado. E ainda está escrito que sentença transitado em julgado é aquela contra a qual não se pode mais levantar nenhum recurso. Portanto, se for a escola tradicional, é flagrante que a prisão em segunda instância é um violação.

No direito moderno, consuetudinário, principalmente amparado pelo pensamento anglo-saxão e que parece influenciar uma ala dos ministros do STF, diz que em nenhum país moderno existem quatro graus de jurisdição a um julgamento por crime comum. Todos exaurem a condenação em segunda instância. Só chegam à terceira temas de indagação constitucional ou principiológica, o que não é o caso em questão. 

CC: Qual discurso será capaz de alcançar os eleitores em um país tão conflagrado como o nosso?

CG: Escolhi o caminho do equilíbrio e desconsidero toda e qualquer conveniência oportunista, mesmo aquelas que tão somente me beneficiem. Em momentos de insegurança jurídica e política, é preciso apostar na inteligência do povo. A franqueza e a sinceridade são fundamentais. Dizer sem medo se A é A ou B é B, mesmo se isso desagradar os amigos ou favorecer os inimigos.

Fonte: JL/Carta Capital
Reportagem publicada no site www.jornalluzilandia.com.br