CBN - A rádio que toca notícia

ARTIGO

Audiência de Custódia: viabilidade

A problemática envolvendo a denominada audiência de custódia apenas pode ser analisada sob esta chave. Isto é, ao se tratar de um tema processual, o que aqui interessa, para além de palavrórios e argumentos de cunho burocrático-operacional, são os questionamentos a respeito de quais valores são consagradas por este instituto

15/05/18, 19:01
Por Alamiro Velludo Salvador Netto, Advogado, Professor Livre-Docente do Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia da Faculdade de Direito-USP (foto)
 
A
ciência jurídica que se dedica ao estudo do processo penal tradicionalmente outorga-lhe uma natureza complexa. A finalidade do processo abrangeria questões múltiplas e de diversos matizes, as vezes de intrincada e conflituosa convivência: a condenação do culpado, a proteção do inocente, a formalidade do procedimento isenta de arbitrariedades e a estabilidade jurídica das decisões (ROXIN, Claus. Derecho procesal penal. Trad. Gabriela Córdoba y Daniel Pastor. Buenos Aires: Editores del Puerto, 2000, p. 4). O alcance destes plurais objetivos apresenta, ao seu turno, um fator essencial de medição, um barema elementar de avaliação: a capacidade das normas processuais de operacionalizarem, em concreto, os valores e princípios constitucionais. Dito de outro modo, a Constituição deve ser a fonte primária da processualística penal, devendo-se fazer valer, acima de quaisquer outros primados, princípios como a ampla defesa, o contraditório e a presunção de inocência. Não é por outra razão, portanto, a relação umbilical entre o sistema penal em sentido amplo e a ordem constitucional.
 
Feitas estas primeiras e sucintas ponderações, uma assertiva já pode aqui ser lançada: as normas processuais penais não são, em si mesmas, ruins ou boas. O caráter instrumental do processo, sua perspectiva teleológica, faz com que suas relações jurídicas e procedimentais apenas possam ser avaliadas à luz da consagração, ou não, de certos valores. O processo penal, nesse sentido, funciona como o mais nítido espelho da política. A leitura histórica é implacável ao diagnosticar que, com o advento de regimes de força, as garantias do cidadão no processo penal são sempre as que inicialmente desvanecem. Isso porque em ditaduras opta-se sempre pela condenação daquele que se quer culpado por algum motivo, fazendo do processo um distorcido instrumento em favor do Estado e não, como deveria ser, de defesa do cidadão. O processo como fator de garantia do cidadão, típico de sistemas que respeitam as liberdades civis, prefere, ao seu turno, fazer valer a proteção do inocente. A liberdade apresenta-se como regra, a prisão como exceção.
 
A problemática envolvendo a denominada audiência de custódia apenas pode ser analisada sob esta chave. Isto é, ao se tratar de um tema processual, o que aqui interessa, para além de palavrórios e argumentos de cunho burocrático-operacional, são os questionamentos a respeito de quais valores são consagradas por este instituto. Posteriormente, pode-se questionar se são estes valores consagradas compatíveis com a Constituição brasileira e condizentes com um projeto de Nação que se queira ver realizado. O ponto central está sediado na ponderação acerca da adequação da audiência de custódia como um instituto jurídico que aprimora o Brasil em seu sentido democrático e republicano. Este é, em suma, o cerne do debate.
 
A audiência de custódia, é bom que se diga, não é uma invenção brasileira. Aliás, está longe de ser uma autêntica jabuticaba daquelas tão apreciadas por Policarpo Quaresma, inesquecível personagem de Lima Barreto. Ao mesmo tempo, a sua não adoção no Brasil em termos estritamente legislativos derivam de algumas razões. Uma delas certamente reside no descompasso temporal, histórico e, principalmente, ideológico da ordem constitucional inaugurada em 1988 e o Código de Processo Penal de 1941. Um tanto quanto óbvio que o pensamento da Constituição Cidadã pouco apresenta em comum com a dimensão jurídica elaborada sob o Estado Novo. Outro motivo parece ser uma espécie de mistura de comodismo e conservadorismo. Não obstante a existência de alguns projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional com a finalidade de inserção da audiência de custódia no Código, constantemente surgem argumentos que sobre ela elencam empecilhos materiais, como falta de servidores aptos ao transporte de presos, longas distâncias a serem percorridas, desnecessidade da medida etc. Somam-se a isso posturas políticas que, de fato, não veem no processo penal um espaço de valorização das liberdades, enxergando-o como explícita ferramenta de persecução.
 
Ocorre que o Brasil, por meio do Decreto nº 678/1992, promulgou a Convenção Americana de Direitos Humanos, aprovada na Organização dos Estados Americanos em 1968 e vigorando internacionalmente desde 1978. Em seu artigo 7º, item 5, assim dispõe o instrumento internacional: toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada para exercer funções judiciais. Trata-se, portanto, da necessidade de apresentação do preso pessoalmente e perante o juiz, oportunidade em que competirá ao magistrado decidir acerca da manutenção da custódia cautelar, tendo em vista os requisitos para esta descritos na legislação processual. Nota-se que este juiz não decidirá o mérito da causa, mas sim a necessidade da prisão processual, a qual apenas se justificará se existente algum perigo ao bom andamento do processo ou de frustração do provimento final. Infelizmente, contudo, no Brasil tal exigência sempre foi ignorada. Nos dizeres de AMARAL, embora já estivesse sedimentado na doutrina e na jurisprudência do STF que a CADH é direito interno, de grau supralegal e infraconstitucional, o art. 7º, item 5 jamais foi aplicado em solo brasileiro em caráter vinculante. Nunca foram anuladas as prisões preventivas originárias de prisão em flagrante cujo preso não foi apresentado sem demora ao juiz para a audiência de custódia (AMARAL, Cláudio do Prado. Da audiência de custódia. In: Boletim IBCCrim. n.º 269, v. 23, 2015, p. 4-6).
 
Final e recentemente, e após muitos anos e esforços de entidades e instituições como o Conselho Nacional de Justiça, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa, dentre outros, iniciou-se no Brasil, a despeito da falta de alteração na legislação processual, a realização efetiva destas audiências. Até mesmo a Comissão Nacional da Verdade apontou como recomendação em seu relatório final a imprescindibilidade da audiência de custódia. No Estado de São Paulo, pioneiro na matéria, foi publicado em 27 de janeiro de 2015 o Provimento nº 03/2015, conjunto da Presidência e Corregedoria do Tribunal de Justiça. No Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária da Capital são realizadas, atualmente, mais de meia centena de audiências diárias, com apresentação do preso em até 24 horas de sua prisão e com a participação do Ministério Público, da OAB, da Defensoria e outros órgãos de assistência social.
 
A experiência paulista mostrou a todo o Brasil que é possível efetivar a norma internacional, e por isso hoje já foi reproduzida em outros Estados da Federação. O número de detidos que obtiveram a concessão da liberdade provisória ou viram seu flagrante relaxado igualmente aumentou, fator que mostra como o contato pessoal do juízo com o preso importa em julgamento melhor e mais humano na exata medida em que percebe as reais condições materiais daquele submetido ao cárcere. Isso no Brasil se faz ainda mais relevante ao se verificar a situação de miserabilidade econômica que fomenta um sem número de delitos patrimoniais e relativos ao comércio ilegal de drogas. A audiência de custódia, existente em praticamente todos os países europeus e latino-americanos, sem dúvida, implica no aprimoramento do regime de liberdades, bem como na fiscalização das práticas dos agentes públicos no momento das detenções.  Cuida-se de um instrumento processual que consagra valores essenciais do Estado Democrático de Direito. Sua aplicação no Brasil já tardava demasiadamente. Necessário agora sua conversão em lei, introduzindo-a legislativamente no Código de Processo Penal. Qualquer outra coisa é arcaico retrocesso.
Fonte: JL
TODAS AS NOTÍCIAS DO PORTAL
22/05/18, 08:10 | POLÍTICA - Lula prepara pré-candidatura à Presidência da República para o dia 27
22/05/18, 07:53 | ARTIGO - É preciso aprofundar os fundamentos sobre presunção de inocência
22/05/18, 07:25 | ARTIGO - O corrupto é, realmente, uma ameaça!
21/05/18, 20:06 | ADMINISTRAÇÃO - Prefeito de Luzilandia contrata engenheiro civil como "mercadoria"
21/05/18, 15:31 | ESPORTE - A maioria dos jogadores da Seleção se apresentou no Centro de Treinamento da Granja Comary
21/05/18, 15:23 | ECONOMIA - Temer convoca reunião para discutir alta no preço dos combustíveis
21/05/18, 14:45 | VULGARIDADE - Prefeito Ronaldo Gomes agride o Jornal Luzilândia; veja
21/05/18, 14:06 | INSTITUCIONAL - Pleno do TJ-PI elege Desembargador Erivan Lopes para mandato especial de sete meses
21/05/18, 13:11 | HOMENAGEM - Vice-governadora recebe Medalha do Mérito Divinal em Valença
21/05/18, 12:27 | ECONOMIA - Caminhoneiros protestam contra alta do diesel em todo o país
21/05/18, 11:40 | POLÍTICA - Jaqkeline Aguiar fortalece bases com Themístocles Filho, Ismar Marques e vereadores de Luzilândia
21/05/18, 08:49 | DECISÃO - Condenação de Ismar e José Marques é confirmada em 2ª instância
21/05/18, 08:19 | INVESTIGAÇÃO - Pelo menos 110 magistrados estão sob ameaça no País, diz CNJ
21/05/18, 08:10 | JUDICIÁRIO - Cármen sobre Lula: TSE não pode tomar iniciativa de impedir candidatura
21/05/18, 07:53 | ESPORTE - Dezessete jogadores se apresentam à seleção nesta segunda-feira
20/05/18, 21:02 | LEGISLAÇÃO - Avança na Câmara projeto que acaba com a revista íntima em presídios
20/05/18, 20:59 | REDES SOCIAIS - Facebook remove 2,5 milhões de posts com discurso de ódio em 6 meses
20/05/18, 20:30 | POLÍTICA - Eleições podem promover até 17 suplentes no Senado em 2019
20/05/18, 20:21 | INVESTIGAÇÃO - Alckmin recebeu R$ 5 milhões em caixa 2 da CCR, diz Ministério Público de SP
20/05/18, 16:29 | INVESTIGAÇÃO - Barco à deriva com 25 imigrantes e 2 brasileiros é resgatado no Maranhã
20/05/18, 16:12 | HISTÓRICO - Um ano após caso JBS, Aécio perde força e complica PSDB
20/05/18, 15:52 | SAÚDE PÚBLICA - Mortalidade infantil no Brasil cresce após 15 anos de redução
20/05/18, 15:46 | POLÍTICA - Alckmin e Serra são investigados por caixa 2 de concessionária
20/05/18, 11:51 | SENTENÇA - Janainna Marques é condenada pela 2ª vez na Justiça Federal por improbidade
19/05/18, 20:20 | MOVIMENTO - Caminhoneiros iniciam paralisação na segunda contra aumento dos combustíveis
19/05/18, 19:54 | CORRUPÇÃO & PROPINA - STF manda quase 100 ações contra políticos para instâncias inferiores
19/05/18, 19:32 | EDUCAÇÃO - Estudantes têm até quarta-feira para pagar taxa de inscrição no Enem
19/05/18, 19:27 | CONHECIMENTO - Ex-catador de lixo se torna professor e doutor em Linguística em SC
19/05/18, 15:13 | POLÍTICA - Desafio do centro é convencer eleitor a gostar da política econômica atual
19/05/18, 14:54 | ACIDENTE - Cuba cria comissão para investigar queda de avião que deixou 108 mortos
« Anterior 1 - 30 | 31 - 60 | 61 - 90 | 91 - 120 | 121 - 150 | 151 - 180 | 181 - 210 | 211 - 240 | 241 - 270 | 271 - 300 Próximo »
JORNAL LUZILANDIA - O Futuro Começa Aqui
Copyright 2003 - Todos os direitos reservados
SITE FILIADO À LITIS CONSULT - REPRESENTAÇÕES COMERCIAIS
CNPJ nº 35.147.883/0001-41 / CCN Comunicação.com Nordeste
Jornalista Renato Araribóia de Britto Bacellar - Homenagem Especial
Luzilândia - Teresina - Piaui - Brasil
CEP:64049-600 - Rua Lemos Cunha, 1544 - Ininga- Teresina-PI
Telefones: (86) 8804.2526 - 8100.6100
jornalluzilandia@hotmail.com | jornalluzilandia@gmail.com
création de site