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POLÍTICA

'Bolsonaro precisa ser o presidente do Brasil, e não só da direita', diz o prefeito de São Paulo

Em entrevista à BBC News Brasil, Covas afirma que sua gestão ainda não tem uma marca pela qual será reconhecida futuramente, como tiveram seus antecessores. Fernando Haddad (PT) ficou conhecido pelas ciclovias e pelas faixas exclusivas para ônibus; e Gilberto Kassab (PSD) deixou como legado a lei Cidade Limpa (que reduziu a poluição visual na cidade)

13/04/19, 21:35

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a semana passada, Bruno Covas (PSDB) completou um ano na cadeira de prefeito de São Paulo, a maior cidade brasileira e o município com o maior orçamento do país - R$ 60,5 bilhões em 2019. Ele herdou a prefeitura em abril de 2018, quando o então prefeito João Doria (PSDB) abandonou o cargo para se candidatar ao governo do Estado.

Como prefeito, um dos desafios de Covas é retomar a confiança dos paulistanos nos tucanos, que nas últimas décadas vêm alternando o controle da cidade principalmente com o PT. Embora ainda não existam pesquisas confiáveis sobre como a cidade avalia a gestão Covas, seu antecessor saiu do cargo em baixa nesse quesito.

Pesquisa Datafolha, divulgada em abril do ano passado, mostrou que apenas 18% dos paulistanos consideravam a administração de Doria ótima ou boa; 34% a achavam regular e 47%, ruim ou péssima. Na eleição para governador, Doria teve menos votos na cidade do que seu adversário Márcio França (PSB).

Em entrevista à BBC News Brasil, Covas afirma que sua gestão ainda não tem uma marca pela qual será reconhecida futuramente, como tiveram seus antecessores. Fernando Haddad (PT) ficou conhecido pelas ciclovias e pelas faixas exclusivas para ônibus; e Gilberto Kassab (PSD) deixou como legado a lei Cidade Limpa (que reduziu a poluição visual na cidade).

"Há uma série de ações sendo desenvolvidas, mas a marca de uma administração tem mais relação com o que as pessoas acham que foi o mais importante do que efetivamente o que eu penso", diz Bruno Covas.

Se fosse ele a decidir, afirma, gostaria que seus projetos na área social fossem lembrados. "Criamos 80 mil vagas em creches, fizemos reformas de postos de saúde, entrega de hospital, 25 mil unidades habitacionais", diz. Apesar disso, em dezembro de 2018 ainda restavam 19,6 mil crianças paulistanas na fila de vagas das creches - na campanha de 2016, João Doria prometeu acabar com essa fila em apenas um ano.

"Mas talvez se lembrem mais do parque Minhocão."

O projeto do parque foi vendido por Covas como uma das soluções para o famoso e polêmico elevado João Goulart, construído nos anos 1970 e que degradou parte da região central da cidade. Em alguns pontos, os carros circulam a menos de três metros da janela dos apartamentos. "Temos uma lei que determina que o Minhocão tem de deixar de ser utilizado como viário. Sobrou para a prefeitura definir pela demolição ou pela construção do parque". Ele promete entregar a obra no final do ano que vem.

Por outro lado, Covas vem enfrentando dificuldades no cargo, como diminuição de investimentos públicos; a interdição de viadutos por falta de manutenção e uma série de paralisações de servidores em virtude das mudanças na previdência municipal.

Outras medidas recentes também foram criticadas, como a redução do número de baldeações permitidas com o vale-transporte nos ônibus, o corte de verbas para o serviço de emergências Samu e a retirada de R$ 240 milhões do orçamento da assistência social da cidade.

Sobre esse último corte, o então secretário da área, José Castro, deixou o cargo acusando Covas de "precarizar" serviços de assistência social em um momento em que o município tem cada vez mais moradores de rua. O prefeito dá sua versão: "O orçamento da secretaria de Assistência Social é de R$ 1,3 bilhão. É impossível que nesse valor não tenha nenhuma gordura a ser cortada. É preciso rever os contratos para que os mesmos serviços sejam oferecidos com menos custo."

Neste mês, o tucano também mudou o plano de metas da cidade, um compromisso formulado por ele e Doria em 2017 e que tem peso de lei. Alguns objetivos ficaram mais tímidos: no início do mandato, a gestão tucana previa construir 72 km de corredores de ônibus, por exemplo; agora, o novo programa fala em apenas 9,4 km.

Ele diz que a revisão das metas é autorizada pela lei local - outras foram retiradas porque não faziam mais sentido ou já foram cumpridas. Mas, segundo o tucano, também há um problema mais grave: a estagnação da economia brasileira.

"Tivemos que ajustar o programa para essa nova realidade. Quando o plano de metas foi elaborado, a gente vivia a expectativa da aprovação da reforma da Previdência ainda na gestão Michel Temer (MDB). O cenário econômico que se projetava para os anos seguintes era muito mais otimista do que efetivamente se realizou em 2017 e 2018 e do que se projeta para este ano e 2020."

Considerado por seus correligionários como um candidato natural à reeleição em 2020, Bruno Covas diz que não está pensando no assunto no momento, nem em seus possíveis competidores. "Adversário não se escolhe", diz ele, repetindo uma frase tradicional em campanhas.

"Eu discuto 2020 em 2020. Se a gente antecipar a discussão de 2020 para 2019, passa o ano e a gente está muito mais preocupado com coligação eleitoral do que com entregar aquilo que precisa ser entregue. A preocupação em 2019 não é ficar buscando partidos, ficar buscando marqueteiro, nada disso. A preocupação em 2019 é governar, é prefeitar", diz.

'Não há bom senso no governo Bolsonaro'

Em uma parede do gabinete de Bruno Covas, há uma foto de seu avô, o ex-governador Mário Covas (1930-2001), um tucano histórico. Também há uma charge do cartunista Paulo Caruso feita durante a entrevista de Covas no programa de TV Roda Viva; e um quadro do artista plástico Romero Britto doado pelo artista a João Doria. Um assessor de Covas confidenciou que o prefeito tentou se livrar da obra algumas vezes, mas ainda não encontrou um local adequado para colocá-la.

A trajetória de Mário Covas é um dos motivos que fazem o prefeito paulistano não simpatizar com o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Durante a ditadura militar (1964-1985), o político paulista foi preso e teve seu mandato de deputado federal cassado.

As afirmações de Bolsonaro de que não houve um golpe de Estado em 1964 e de que o antigo regime foi bom para o país irritam o prefeito. "São manifestações como essa que me afastaram dele", explica. "Não dá para agora a gente querer passar uma borracha na quantidade imensa de pessoas que foram presas, que foram cassadas, que foram torturadas, que sumiram."

Covas disse à BBC News Brasil que anulou o voto no segundo turno das eleições do ano passado, quando Bolsonaro disputou a Presidência com o petista Fernando Haddad. "Eu não iria votar no PT de jeito nenhum, votei pelo impeachment da Dilma quando era deputado. Eu tinha duas opções: votar no Bolsonaro ou anular meu voto. Busquei, ao longo das três semanas, alguma frase que mostrasse que ele (Bolsonaro) teria muito mais bom senso como presidente. Não encontrei. E por isso anulei", disse.

Embora espere que a reforma da Previdência seja aprovada ("não dá mais para esperar"), o tucano afirma que "ainda não encontrou" no governo federal o bom senso que procurava em Bolsonaro no ano passado. "Esse problema é o que impede que a reforma (da Previdência) caminhe no Congresso", afirma. "Você não pode governar apenas para os seus, para o seu grupo político. Bolsonaro precisa ser o presidente do Brasil, e não só da direita. Acho que é esse entendimento que ele precisa ter."

PSDB precisa ser um partido 'radical de centro'

Tido como um nome para o futuro do PSDB, Bruno Covas, de 39 anos, é um herdeiro político e está acostumado aos corredores do poder desde que a juventude. Nessa época, mudou da casa dos pais em Santos, terra da família, para o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Viveu com os avós no palácio dos 15 aos 18 anos, até terminar os estudos.

Depois, fez parte da ala de jovens do partido, sendo bastante próximo de um setor mais à esquerda dos tucanos. Questionado pela BBC News Brasil se ele se considera uma pessoa de esquerda, o prefeito tergiversou na resposta. "Sim… De esquerda não, de centro, né", diz.

"Entendo que não tem sentido o poder público participar de algumas áreas da atividade econômica, e isso me distancia da esquerda, que entende que o governo tem que estar em todas as áreas. E eu também entendo que o poder público não pode abrir mão da participação em alguns setores que vão muito além da segurança (pública), o que me distancia da direita. O poder público não pode estar fora da habitação, do transporte, da saúde, da educação".

Nos últimos anos, porém, o partido tem assumido posições mais à direita. Nas últimas eleições, por exemplo, João Doria criou o slogan "BolsoDoria" para se aproximar dos eleitores de Jair Bolsonaro. Antes disso, foi também com bandeiras conservadoras que Doria se elegeu prefeito de São Paulo.

Mas, ao longo da entrevista, Bruno Covas negou duas vezes que seu antigo companheiro de chapa seja um político de direita. "Pergunte a ele (Doria) se ele é de direita. Tenho certeza que ele vai dizer que é de centro", disse ele.

O centro do espectro político é o local onde o PSDB deve ficar no futuro, segundo o prefeito. "Acho que o PSDB precisa se reapresentar para a sociedade como um partido de centro. Esta é a vocação, é a história do partido, é a linha do partido".

Por outro lado, os tucanos se viram envolvidos em várias denúncias de corrupção. Seu ex-presidente, o hoje deputado federal Aécio Neves, é réu no Supremo Tribunal Federal por obstrução de Justiça no escândalo envolvendo a empresa JBS. "Acho que Aécio deveria ter sido expulso do partido", disse.

Em outro caso, o ex-presidente da Dersa (estatal paulista de rodovias), Paulo Preto, foi preso sob acusação de cobrar propinas que depois teriam abastecido contas de políticos tucanos.

"Nós apanhamos na última eleição em especial, acredito eu, por dois motivos", diz Covas. "Primeiro deles: a gente não fez a nossa lição de casa quando se apontou casos de corrupção envolvendo membros do PSDB. O partido não se manifestou em casos, como o envolvendo do Aécio Neves. Não fez a lição de casa de separar o joio do trigo."

Mudança no comando tucano

Em maio, o PSDB renova sua direção - e escolhe seu presidente nacional pelos próximos dois anos. Bruno Covas apoiará um xará seu: o ex-deputado federal e ex-ministro das Cidades de Michel Temer (MDB), Bruno Araújo (PE). O pernambucano é também o nome de escolha de Doria, e, assim como o governador e o prefeito, faz parte do grupo dos "cabeças pretas" do PSDB - a ala de políticos mais jovens da sigla, em contraposição aos "cabeças brancas".

"Vou apoiar o Bruno Araújo. É o meu candidato. Convivi com ele durante os dois anos em que fui deputado federal. Foi um excelente líder da minoria, tem boa cabeça, é um excelente quadro. E depois convivi com ele como secretário e prefeito num momento em que ele era ministro das Cidades", diz Covas.

O prefeito diz ainda que o núcleo de gravidade do PSDB está mudando - antigos manda-chuvas da legenda como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador paulista Geraldo Alckmin estão, aos poucos, cedendo espaço.

"É claro que a partir do momento em que você tem o João Doria como governador do Estado de São Paulo, cargo mais importante hoje ocupado por um tucano; eu como prefeito de São Paulo, a maior cidade administrada por um membro do PSDB, você passa a ter a importância que o cargo dá a você", diz ele.
 
Fonte: JL/BBC News Brasil
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